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Transgênicos
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O consumidor, o mercado e os transgênicos

Paulo Varela Sendin*

      A questão dos alimentos transgênicos tem ocupado um grande espaço na mídia, com o foco dirigido essencialmente para os aspectos ambientais e de segurança quanto à saúde do consumidor. As pesquisas de opinião, especialmente as entrevistas de rua mostradas na TV, indicam um grande desconhecimento sobre o assunto por parte do chamado "grande público". Seria oportuno, portanto, fazer uma análise do tema com um enfoque distinto do utilizado pelas associações ambientalistas e de defesa do consumidor, mas também sem o viés das grandes empresas interessadas comercialmente na venda dos produtos transgênicos.
      Boa parte dos cientistas assegura que esses alimentos não são prejudiciais à saúde e outra parcela, provavelmente menos significativa do que essa, os considera sem grandes riscos ambientais. Neste caso, cabe discutir esses possíveis problemas e exigir que o assunto seja melhor estudado nas condições locais de plantio de cada produto.
      Apenas para efeito desta análise, e sem julgamento de valor sobre quem está certo na discussão científica, vamos considerar que esses produtos sejam realmente seguros dos pontos de vista ambiental e de saúde. Partindo-se dessa premissa, quais seriam os fatores determinantes do maior ou menor consumo dos mesmos, ou seja, para utilizar o jargão de Marketing, o que determinaria seu nível de participação no mercado ou "market share"?
      Não é preciso ser um grande especialista em Marketing para saber que o que determina a aquisição de um produto ou serviço é sua capacidade de satisfazer os desejos e necessidades do consumidor. E, se o produto atende às demandas de qualidade do comprador, o fator preço, com certeza, passa a ser determinante na opção de compra. No caso dos alimentos transgênicos que estão chegando ao mercado qual é a situação em relação a preço e qualidade, aqui definida como capacidade de atender desejos e necessidades do consumidor? Na questão de qualidade, todas as afirmações que se têm dos próprios "fabricantes" desses produtos é que eles são exatamente iguais aos tradicionais, sendo até mesmo impossível de diferenciá-los sem o uso de equipamentos e métodos científicos sofisticados. No que se refere a preços, não houve, até o momento, nenhuma indicação de que os produtos finais (os que de fato interessam aos consumidores) venham a ser vendidos a preços inferiores aos dos não transgênicos. O que há são indicações de que, provavelmente, teriam um menor custo para o produtor rural, não se prevendo, no entanto, repasses significativos desses ganhos ao consumidor.
      Parece que muitos estão se esquecendo dessa equação muito simples, ou seja, de que a decisão de compra é função de qualidade e preço. Os produtos transgênicos (pelo menos os que estão ocupando a atenção maior da mídia, como a soja e o milho) estão chegando ao mercado sem nenhum diferencial de preço ou qualidade, esperando-se, de certa forma até ingenuamente, que os consumidores os adquiram em detrimento de outros que já estão no mercado há muito tempo. E, pior ainda, existem dúvidas ou mesmo temores, por menores que sejam, quanto aos seus efeitos sobre a saúde humana além de que possivelmente ocasionem algum dano ambiental. Com certeza seria preciso um fabuloso esforço de marketing para vender qualquer produto (substituindo os que já estão no mercado) com essas características, ou seja, sem diferenciação de qualidade ou preço e, ainda mais, apresentando riscos. Note-se que, para chegar a esta conclusão, não é necessário tomar partido, em nenhum momento, quanto à existência ou não de riscos ao consumidor ou ao meio ambiente. Para essa análise, basta reconhecer que o consumidor tem dúvidas, mesmo que sua percepção em relação a esses riscos não se baseie em nenhuma prova científica, positiva ou negativa.
      Assim, para que esses produtos realmente aumentassem sua participação no mercado de consumo final, teríamos três opções. Em primeiro lugar, esconder do consumidor a sua qualidade de transgênico. Essa foi a política adotada até o momento, enquanto a voz das associações de defesa do consumidor não se fez ouvir com força. Só muito recentemente é que as empresas interessadas nesses produtos vêm aceitando (com reservas) a necessidade de rotulagem. Essa é uma das contradições da chamada "economia de mercado". Teoricamente ela se baseia na plena circulação das informações sobre qualidade e preço dos produtos; na prática, no entanto, as mercadorias só têm rótulos informativos quando a lei exige. Eliminando-se a possibilidade legal de "enganar" o consumidor, vendendo transgênicos como se fossem produtos tradicionais, sobram duas opções. Se o diferencial de custo da produção de transgênicos for realmente significativo e houver efetivo repasse dos ganhos ao consumidor final, mesmo com a rotulagem explícita sobre as características do produto haverá um nicho de mercado, proporcional a esse diferencial de preço e à falta de poder aquisitivo dos compradores. A terceira possibilidade de ampliação de mercado para os transgênicos em geral seria o lançamento de produtos que realmente apresentassem diferencias de qualidade muito transparentes aos consumidores, como sabor, durabilidade, benefícios à saúde, etc. Nestes casos é que as ferramentas de Marketing poderiam ser importantes na ampliação do consumo, até mesmo a despeito de dúvidas que ainda persistissem em relação a riscos ambientais.
      Para complicar ainda mais o debate, agora que a questão da rotulagem parece se encaminhar para algum tipo de solução normativa legal, não é possível esquecer que, junto com as etiquetas de informação ao consumidor, vem o problema da chamada rastreabilidade, ou seja, cada elo da cadeia produtiva, que eventualmente produz ou manipula produtos transgênicos, deve ter condições de assegurar se a matéria prima que utiliza é ou não geneticamente alterada. E isso custa dinheiro, já que as análises, pelo menos por enquanto, são sofisticadas e caras. O ônus da rastreabilidade, que é essencial para que a rotulagem seja honesta, deveria ser dividido entre os diversos elos da cadeia produtiva. Tradicionalmente, no entanto, sempre que se agregam custos às cadeias agroalimentares, só dois atores pagam: o produtor rural e o consumidor final. Neste caso a coisa se complica, pois o produtor tem que ser convencido a deixar sua variedade convencional para utilizar a transgênica, provavelmente com sementes mais caras e não reaproveitáveis de uma safra para outra. O consumidor, por outro lado, sempre levará em conta o parâmetro preço ao decidir pela aquisição ou não e, assim, se o custo da rastreabilidade for alto e a ser pago por ele, dificilmente alterará seu padrão de compra.
      Como se depreende das colocações acima, a verdadeira batalha pelos transgênicos vai se dar no mercado consumidor. É a soma das vantagens e desvantagens percebidas (não necessariamente reais) pelo consumidor que deve dar um resultado positivo ao ser comparada com seus desejos e necessidades e sua disponibilidade de renda. Se esse resultado for positivo, os transgênicos emplacam no mercado. Se essa soma for negativa, segundo a percepção do consumidor, dificilmente esse tipo de produto deslocará os tradicionais. Por enquanto, ao que parece, os transgênicos estão perdendo o jogo...

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OBS: Publicado originalmente na Gazeta Mercantil/Caderno Paraná em 14 de setembro de 2.000. Versão resumida havia siido publicada, também, no Jornal do Commercio do Recife/Caderno Ciência e Vida em agosto de 2.000.

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*Paulo Varela Sendin é diretor administrativo da FAPEAGRO - Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento do Agronegócio/ Londrina - PR.

 
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